quinta-feira, 13 de maio de 2010

As aventuras de um pendrive

Fez-se necessário que eu narre aqui uma situação ocorrida ontem durante o dia na sede do município de Coari, Amazonas. Quero narrá-la não só para que eu possa rememorá-la e rir no futuro, mas como um certo tipo de experimento.
Meu pendrive é provavelmente o mais usado no barco. Desconfio que isso seja não só pelo tamanho da memória (8 GB), mas também pela simpatia de seu design arrojado em formato de skate, ao qual as pessoas incontrolavelmente se afeiçoam. Não há orgulho nenhum em ter o pendrive mais rodado da parada, até porque isso significa que ele é o mais promíscuo e provavelmente o mais carregado de vírus vindos dos outros computadores.
O fato é que quero constatar as mudanças na atitude das pessoas depois que eu contar por onde meu belo pendrive andou passeando. Não vou nem propagandear falando que escrevi um texto novo pro blog, deixemos que o destino os leve a ler sobre esta breve e profunda aventura.

Estava eu na lan house mais próxima do porto onde o barco está ancorado, fazendo meu trabalho e esperançoso de falar com Gabriela na internet. O sinal da internet no barco não estava lá essas coisas - como em grande parte da viagem -, e optei por ir à lan house. Acabei vendo que a suposta "banda larga" do lugar não era muito melhor que o sinal no barco - fiquei por lá mais de 3 horas seguidas até conseguir mandar tudo que precisava pro trabalho.
Sei que, depois de muito tempo lá sentado, começou a me dar uma vontade forte de fazer xixi. Vi que o negócio ainda ia demorar, desliguei o monitor e fui em direção ao banheiro. Levei comigo o celular e o fone de ouvido (estava ouvindo música), além de meu magnífico pendrive - não ia deixar meus bens dando sopa assim.
A portinha no canto da loja tinha uma plaquinha até ajeitada que dizia "banheiro". Mesmo assim, perguntei pra moça do caixa: "Ali é banheiro, né?" - ok, a pergunta pode ter parecido meio desnecessária. Mas pior que ela me olhou com uma cara de quem peidou no elevador e disse "É... Assim... Dá pra usar, né..." Achei que ela estava com vergonha só porque viu que eu era branquelo estrangeiro alienígena, e respondi com um sorriso humilde: "Náá, tranquilo" (Afinal, é só um xixizinho - pensei).
Quando abri a porta, me deparei com o que devia ser uma réplica do banheirinho do zelador do inferno, depois de o próprio ter acabado de castigar a porcelana. Procurei pelo interruptor na parede, e ouvi a mulher falando atrás: "É assim mesmo, no escuro". Com a luz de fora, consegui ver o suficiente - as paredes todas com os tijolos à mostra ou toscamente cobertas por cimento, alguns fios elétricos expostos, chão suuujo pra caramba, teto reclinado pelo que parece ser a escada dos fundos da loja vizinha... Na parede tem até um furo de uns 10 cm de diâmetro que dá pros computadores, mas pelo menos tiveram a decência de tapá-lo com um pedaço de isopor pra que moleques tarados não se aproveitem da circunstância.
Encostei a porta e acendi o celular para conseguir pelo menos mirar na privada - apesar de não fazer muita diferença devido ao estado do chão. Com a pouca luz ainda foi possível ver que a água no trono não era transparente, muito longe disso. Formas semi-sólidas também pareciam habitar por ali. Olhei pra cima, respirei fundo e mandei o xixizão.
Alívio por uns 5 segundos, desespero em seguida. Senti que o pendrive, que estava na mesma mão do celular, havia escorregado (BURO, por que não guardou no bolso!?). Ouvi só o barulhinho na água: "ti-bluct". Se você já assistiu o filme Trainspotting, sabe bem que cena veio imediatamente à minha mente.
Em uma microfração de segundo, vi a vida do pendrive passar pela minha frente. O dia em que a Gabriela me presenteou com ele, o primeiro arquivo salvo, o primeiro vírus encontrado, a rodinha que quebrou no meu bolso, tantos arquivos, tantas imagens, tantas músicas... Me agachei e vi com a luz do celular a pontinha dele pra cima enquanto o pobre jazia como um iceberg, mais de 95% encoberto em um oceano de dejetos nos mais diversos estados de decomposição.
A adrenalina subiu à cabeça e consegui pescá-lo com as pontas dos dedos, levemente triscando a superfície do plasma que habitava a privada. Parece que esse "triscar" vai me arrepiar os cabelos da nuca por um bom tempo, sempre que eu lembrar dessa história. Vi que havia ao lado da privada um balde cheio d'água, e não pensei duas vezes. Mergulhei o pendrive lá, dei umas esfregadas e tirei sacudindo a mão, procurando inutilmente alguma toalha, papel, guardanapo... Uma calcinha pendurada já teria sido de alguma ajuda.
Na falta de algo pra secar, usei a parte de trás da bermuda e guardei o pendrive no bolso lateral. Sequei a mão do mesmo jeito, fechei as calças e saí do banheiro. É, esqueci de falar que essa manobra toda foi feita com o zíper aberto e a bermuda querendo descer pras canelas.
Passei pela mulher e falei "Cê foi boazinha dizendo que dava pra usar, hein!", mas acho que saiu mais como um grunhido do que como algo inteligível. Sentei de novo em frente ao computador, mas não conseguia nem olhar pra minha mão direita, como se ela não fizesse parte de mim e ficasse me olhando fixo. Percebe-se que, como bom canhoto, escolhi subconscientemente que sacrificaria a mão direita caso um ser do abismo resolvesse puxá-la privada adentro.
Abri a carcaça do pendrive no dia seguinte e o sequei por dentro também, apesar de que já estava praticamente seco. Testei-o em seguida, está tudo ok.

Quero saber agora quanto tempo vai demorar até que as pessoas do barco leiam meu blog e passem a olhar o pendrive com outros olhos. Pode ser até que uma delas esteja com o pendrive plugado no próprio computador enquanto lê, e se eu estiver atento o bastante vou ver um olhar de nojo eterno, primeiro pro pendrive, depois pra mim. Ele vai deixar de ser o pendrive mais popular da parada, o que não é nenhum problema. Só não sei se minha mão direita também vai passar a sofrer discriminações - o que é passível de processo, já que o ambiente é de trabalho.
Finalmente, queria dizer que sou ídolo aqui no Amazonas. Tenho fãs incontroláveis, às vezes parece que sou só eu na equipe porque nem olham direito pras outras pessoas. O problema é só que os fãs são os carapanãs (mosquitos) locais, e a grande obsessão deles é pelos meus pés. Veja aí como eles ficaram após a passagem por Codajás. Ainda bem que aqui em Coari eles são menos famintos.

5 comentários:

  1. Nãaaao acreditooo que você deixou o pendrive que EU te dei cair numa privada de bosta! Não te dou mais nada de agora em diante, Fabio Tito!
    Huhauauahuahuahuauhua

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  2. Caraca, nao posso mais abrir o seu blog daqui do trabalho...acho que to queimando meu filme dando pala aqui desse jeito.Tava aqui lendo o comecinho quando uma das minhas chefes chegou e eu comecei a raxar de rir...kkkkkkkkkkkk, ela sem entender nada, provavelmente achou estranho...ficou super chato... mas enfim, ta muito engraçada essa história de hoje, até pq quem te conhece sabe exatemente suas expressoes,o que torna o texto ainda melhor.
    Mas tirando a parte comica,até que vc foi bem corajoso viu...eca.Passa um alcool gel nele depois,alguma coisa assim.Só sei que O Felipe nao pega mais ele pra brincar,hehe.
    Kd os jacarés?Sua camisa chegou esses dias e hoje nós dormimos no seu quarto enquanto nao arrumamos a nossa bagunça...um friiiiooo.
    E seu pé, que dóó!!O pior é que fica coçando dias.Compra Fenergan!!Se vó Laura vir essa foto ela manda pra vc por sedex,haha.
    grande beijo, fica com Deus!

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  3. Puta merda mlk!! Mijei nas calças de rir imaginando sua cara enquanto resgatava o objeto na merda movediça!

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  4. Que ironia o nome do blog se chamar "fui pro barco", deveria virar uma nova manobra de skate..

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  5. kkkkkkk rachei de ri.!
    interessante que estás parado na primeira posição de ballet ;)

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